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Leitura Orante da Escritura na Catequese

  • 18 de ago. de 2025
  • 13 min de leitura

Atualizado: 1 de dez. de 2025

Leitura Orante - Lectio Divina
Lectio Divina é leitura individual ou comunitária da Escritura, guiada pelo Espírito.
Introdução

A leitura orante (Lectio Divina) é uma leitura espiritual da Bíblia, cujo centro é a Palavra de Deus. A princípio pode surgir a pergunta: "como assim? se é leitura da Bíblia, o centro só pode ser a Palavra de Deus que é a própria Bíblia!". Antes de prosseguirmos é necessário esclarecer que

a Palavra de Deus assume diferentes níveis de significado. Em primeiro lugar, designa o próprio Deus (Pai) que fala o seu Verbo Divino, o seu Verbo Criador e Salvador, o seu Verbo encarnado em Jesus Cristo. A Palavra de Deus identifica-se com o ensinamento oral de Jesus. Essa Palavra de Deus, uma e múltipla, dinâmica e escatológica, pessoal e filial, habita e vivifica a Igreja mediante a fé da Tradição apostólica. Essa Palavra de Deus transcende a Sagrada Escritura, embora esta a contenha de modo totalmente singular. (Terra, 2019, p. 224).

Portanto, poderíamos dizer que a Sagrada Escritura é uma expressão da Palavra de Deus, mas ela própria não é a Palavra de Deus, pois mesmo que a contenha de modo único, ela não é o Verbo de Deus que é o próprio Jesus. Quanto a isso é esclarecedora a lição de Henri De Lubac:

O cristianismo não é, propriamente falando, uma "religião do Livro": é a religião da Palavra, mas não unicamente nem principalmente da Palavra sob sua forma escrita. É a religião do Verbo, "não de um verbo escrito e mudo, mas de um Verbo encarnado e vivo". A Palavra de Deus está agora entre nós, "de tal maneira que a vemos e a tocamos": Palavra "viva e eficaz", única e pessoal, unificando e sublimando todas as palavras que lhe prestam testemunho! O cristianismo não é "a religião bíblica": é a religião de Jesus Cristo. (De Lubac, 1961, p. 196-197).

Feitas essas importantes considerações, podemos seguir adiante com com a leitura orante da Sagrada Escritura. Ela consiste, em mais do que uma busca por conhecimento intelectual, ela nasce de uma atitude interior de sede profunda por Deus. Realizada de forma individual ou comunitária, essa leitura é guiada pelo Espírito Santo, que conduz o coração do leitor ao encontro com o mistério divino. Seu objetivo é nutrir a fé e fortalecer a adesão pessoal ao Senhor.
Também é conhecida como Lectio Divina, um termo latino derivado da expressão grega thea anagnósis (θεα ανάγνωσις), usada por Orígenes numa carta à um discípulo, na qual já estavam delineados os elementos da dessa leitura espiritual (leitura, meditação e oração). Profundamente influenciado pela tradição judaica e pela filosofia grega, Orígenes desenvolveu uma abordagem espiritual e teológica da leitura bíblica que ultrapassava a simples interpretação literal. A expressão Lectio Divina enfatiza fé, busca de Deus, oração e perseverança como condições essenciais.
Contudo, quem a sistematizou foi Guigo II, monge cartuxo do século XII. Guigo não “inventou” essas práticas, mas foi o primeiro a organizá-las como um processo contínuo. Embora descritos separadamente, os quatro degraus formam um único movimento: a lectio dá matéria à meditação; a meditatio produz afeto e desejo; a oratio entrega o desejo a Deus; e a contemplatio devolve a Deus o coração transformado.
Ele escreveu uma carta a um irmão de comunidade descrevendo uma experiência espiritual que, segundo ele, lhe foi dada por Deus: a percepção de que a vida espiritual se organiza como uma escada pela qual o monge sobe em direção ao céu. Essa escada tem seus “degraus” apoiados na terra (isto é, na condição humana), mas o topo alcança o coração de Deus, como a escada de Jacó no livro do Gênesis.
A imagem da escada não é apenas um ornamento literário: ela expressa o movimento interior do coração que busca, com esforço humano e graça divina, aderir cada vez mais profundamente à Palavra. Cada degrau é um ato espiritual e, ao mesmo tempo, um estado de alma. A progressão é lógica, orgânica e profundamente pedagógica. A escada é também circular: após a contemplação, a alma volta à leitura com maior amor e profundidade, e todo o processo recomeça num nível mais alto.
Sua prática é antiga na Igreja, com raízes no século III e realizada intensamente até o século XII por Padres e monges gregos e latinos. Daí até o Séc. XX a expressão desaparece levando consigo a realidade a que se refere. Seu retorno se desenha após o Concílio Vaticano II, especialmente com a Constituição dogmática Dei Verbum (1965) que exorta padres, religiosos e fiéis à leitura assídua das Escrituras e propõe leitura individual e em grupo, sempre acompanhada de oração. Somente na primeira década do Séc. XXI, é que ela definitivamente resgatada por meio do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus (2008). O Sínodo acolheu essa prática como uma experiência privilegiada de um “encontro orante com a Palavra de Deus” (Instrumentum Laboris, n. 38).

Embora a Sagrada Escritura contenha a Palavra de Deus de modo singular, esta a transcende, sendo mais ampla que o texto escrito. A Palavra é transmitida tanto pela Escritura quanto pela Tradição, recebida pela Igreja sob a ação do Espírito Santo.
Embora a Sagrada Escritura contenha a Palavra de Deus de modo singular, esta a transcende, sendo mais ampla que o texto escrito. A Palavra é transmitida tanto pela Escritura quanto pela Tradição, recebida pela Igreja sob a ação do Espírito Santo.
Bibliocentrismo ou "Bibliolatria" da Lectio Divina na Catequese?

Para todos nós católicos, especialmente os catequistas, é preciso lembrar que a catequese necessita ser “bibliocêntrica” (centrada nas Sagradas Escrituras), porém, não “bibliolátrica” (tornada objeto de idolatria). Então, tomar a leitura orante como método da leitura bíblica na catequese exige alguns cuidados da parte do catequista e de qualquer praticante do método. Pois, como apontado acima, por ser uma leitura espiritual, o praticante deve despojar-se de seu ego para entregar-se ao Espírito Santo e não incorrer em interpretações particulares divergentes da mensagem desejada por Deus, transmitida pelos Apóstolos e ensinada pela Igreja. Dom João Terra apontava que “a Sagrada Escritura pode ser interpretada de vários modos. Como objeto de estudo científico, como obra literária, como instrumento ideológico para práxis revolucionárias, ou como um encontro pessoal com Deus, no Espírito.” (Terra, 2019, p. 240)
A Escritura é uma expressão de fé comunitária, sendo assim não pode expressar “o que eu acho”, mas sim o que Deus quer que eu perceba a partir da minha vivência de fé em comunidade. O texto bíblico não é um objeto isolado, mas nasce e ganha sentido dentro da comunidade eclesial que o produziu e o reconheceu como expressão de sua fé. Isso quer dizer que ele pede de nós uma resposta existencial. A leitura bíblica autêntica exige que o fiel se coloque diante do texto e do contexto, interpretando-os a partir de sua vivência da fé.
Por tudo isso, são necessários alguns cuidados quanto ao texto bíblico, seu contexto e os pretextos de cada leitor ao se realizar a Lectio Divina. Quem usa o texto bíblico como instrumento ideológico incorre na prática de leitura utilitarista da Bíblia. Isso na prática se traduz em releituras sociológicas e políticas que privilegiam o Jesus histórico em detrimento do Cristo Pascal. Substituem a filosofia pela sociologia como chave interpretativa. Algumas interpretações negam a divindade de Cristo. Apresentam Jesus como mero profeta ou revolucionário político. Essas visões não condizem com a fé da Igreja. Abaixo, podemos verificar um exemplo prático disso ao comparar as traduções e comentários ao Magnificat em três edições distintas da Bíblia:

Quadro 1: Análise do Magnificat (Lucas 1, 46-56) sob diferentes perspectivas teológico-interpretativas

EDIÇÃO

TEXTO

COMENTÁRIOS

Bíblia de Estudos

(Ave-Maria)

E Maria disse: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.

 

Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre”. Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa.

Lucas verifica que enquanto os grandes e poderosos se esforçam por conduzir a história sob os critérios do poder, do possuir e do domínio, deixando à margem uma esteira de empobrecidos, de marginalizados e de excluídos, Deus vai realizando sua ação no mundo justamente por meio dessas "sobras" que a sociedade estruturalmente injusta vai largando. exatamente por isso o cântico de Maria é revolucionário, porque, ao refletir as convicções de uma alma livre e libertada, convida também a uma autêntica libertação. (....) é um convite a não continuar "engolindo" o conto de que uma sociedade tão injusta como a de Maria — e como a de nós todos — seja o reflexo de algum desígnio ou querer de Deus. e o que é mais revolucionário ainda, o Magnificat revela uma imagem de Deus completamente diferente da imagem de Deus que os opressores manuseiam. É pena que o Magnificat tenha perdido, não se sabe desde quando, essa força libertadora inicial transformando-se em um cântico à resignação e à expectativa passiva de mudanças e intervenções divinas a favor dos pobres, dos famintos e dos humilhados, que não se sabe quando acontecerão, mas que "é preciso esperar", pois não foi esse o sentido original. É certo que Deus intervirá em favor dos humilhados e dos marginalizados, mas só quando nós, com nosso esforço, com nossa luta, começarmos a "preparar" essa intervenção. (grifos meus).

Peregrino (Paulus)

Maria disse: Minha alma proclama a grandeza do Senhor, meu espírito festeja a Deus, meu Salvador, porque olhou a humildade de sua escrava, e daqui para a frente me felicitarão todas as gerações. Porque o Poderoso fez proezas, seu nome é sagrado. Sua misericórdia com seus fiéis continua de geração em geração.

 

Seu poder é exercido com seu braço: dispersa os soberbos em seus planos, derruba do trono os potentados e exalta os humildes, cumula de bens os famintos e despede vazios os ricos. Socorre Israel, seu servo, recordando a lealdade prometida a nossos antepassados, em favor de Abraão e sua descendência para sempre. Maria ficou com ela três meses, e depois voltou para casa.

Maria dirige o louvor para Deus, que fez tudo, ao passo que ela deixou fazer. Na passagem prodigiosa da virgindade a maternidade ela descobre o estilo e o esquema da ação renovadora de Deus, manifestada também na esfera política e na econômica (1 Sm 2,4-8; SI 113,6-9): não para mudar os lugares, deixando as coisas como estão, mas sim no espírito messiânico das bem-aventuranças (felicidades, venturas). A ela felicitarão (Gn 30,13; Ct 6,9) todos os que reconhecerem esses valores. Ela é a “serva” que representa Israel, “servo” desvalido e socorrido por Deus (e também a igreja das bem-aventuranças). O hino é de puro estilo bíblico, cheio de citações e reminiscências do AT. O cântico está composto em estilo de hino, com temas tradicionais. Divide-se em duas seções, com o corte final do versículo 50. Parece enlaçar-se a Israel, o povo escolhido; no tempo, parte de Abraão e continua sem fim. Não menciona expressamente a maternidade, implícita no contexto próximo. Não é improvável que Lucas tenha adaptado um hino já existente. Do cântico de Ana e seu contexto (I Sm 1—2) toma: o tema básico da maternidade (2, 5), as duplas poderosos/humildes, ricos/pobres (2 ,5.7.8), a reviravolta da situação, o gozo da celebração (2, 1), a santidade de Deus (2, 2 ), a atenção para a humildade ou humilhação (1, 11), o Deus de Israel (1,17). (grifos meus)

Pastoral (Paulus)

Então Maria disse: "Minha alma proclama a grandeza do Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Doravante todas as gerações me felicitarão, porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo, e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração.

Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias. Socorre Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, — conforme prometera aos nossos pais — em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre." Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa.

O cântico de Maria é o cântico dos pobres que reconhecem a vinda de Deus para libertá-los através de Jesus. Cumprindo a promessa, Deus assume o partido dos pobres, e realiza uma transformação na história, invertendo a ordem reinante: os ricos e poderosos são depostos e despojados; os pobres e oprimidos são libertos e assumem a direção dessa nova história. (grifos meus).

A partir dos grifos que fiz em cada comentário podemos observar que na Bíblia de Estudos (Ave-Maria), o Magnificat é interpretado sob a perspectiva da teologia da libertação (sociopolítica), como um hino revolucionário que denuncia injustiças e exalta a ação transformadora de Deus pelos pobres e marginalizados. Critica-se sua domesticação histórica, que o reduziu a um louvor passivo, destacando seu convite à libertação ativa, com a comunidade humana como agente de mudança. A chave hermenêutica é sócio-histórica, focada na justiça social (termo que surge em âmbito católico, mas foi apropriado por correntes sociopolíticas).
Já na edição Peregrino (Paulus), o Magnificat é visto como um hino clássico, com ecos do Antigo Testamento, especialmente do cântico de Ana (1 Sm 2). Mais que político, expressa a ação escatológica de Deus (plena realização do seu plano de salvação na vinda gloriosa de Cristo), revertendo poderes e revelando seu estilo messiânico. Maria representa Israel e a Igreja, numa leitura exegético-litúrgica centrada na continuidade da história da salvação. Não podemos deixar de lembrar que toda a Bíblia nos fala da História da Salvação, que se consuma com a Encarnação, vida, Paixão e Morte de Jesus. Isso ocorre em 3 etapas principais: 1. Deus busca o homem na Primeira Aliança. 2. Deus busca o homem na pessoa de Jesus Cristo. 3. A Igreja agora busca levar o homem a esse Deus que se encarnou por nós.
Ainda que mais contida do que a edição Ave-Maria de Estudos, a edição Pastoral (Paulus), também mostra o Magnificat como o cântico dos pobres que reconhecem a ação libertadora de Deus em Jesus e que proclamam a inversão da ordem vigente: poderosos são depostos, ricos esvaziados, enquanto pobres e humildes são elevados. Ou seja, possui a mesma leitura revolucionária do Jesus histórico. Ainda assim, enfatiza o cumprimento da promessa a Abraão e a opção divina pelos humildes, incentivando a vivência comunitária da fé. A chave interpretativa me parece a pastoral-teológica, porém, voltada à transformação social. Portanto, mesmo com caráter catequético, pelo fato de tangenciar a História da Salvação, tem tons mais materiais do que espirituais.
É preciso lembrar que ao realizar a leitura orante não devemos ler os comentários das notas de rodapé em nossas bíblias se isso não for ajudar a medidar e orar, mas apenas o texto bíblico em si. Trouxe os comentários dessas três traduções para que vocês percebam como os modos de ler a Escritura podem ser utilizados para fins pessoais e políticos, ao invés de comunitários e espirituais.
Ainda assim, deixo a seguinte pergunta: sabendo o que significa e em que consiste a leitura orante da Bíblia, qual dessas três interpretações mais se aproxima de uma leitura espiritual e apropriada para a catequese, e por quê?
Há também aqueles que realizam leituras fundamentalistas da Bíblia. Tal modo de leitura apresenta diversos riscos, sobretudo por rejeitar a linguagem humana como meio legítimo de expressão da Palavra de Deus. Essa abordagem entende a inspiração bíblica como um ditado palavra por palavra, ignorando os gêneros literários e os modos próprios do pensamento humano. Além disso, nega a evolução histórica dos textos sagrados, tratando-os como documentos atemporais e imutáveis. Há também uma confusão recorrente entre interpretação literal — que busca o sentido próprio do texto — e interpretação literalista, que desconsidera o contexto e a intenção original. Por fim, essa leitura resiste ao esforço hermenêutico (interpretativo) necessário para compreender a Bíblia em sua profundidade, contexto e riqueza simbólica. Sobre isso, vejamos o próximo quadro:

🔍 Quadro 2: Diferença entre Interpretação Literal e Literalista (elaborado a partir de Gastone Boscolo, 2021)

ASPECTO

INTERPRETAÇÃO LITERAL

INTERPRETAÇÃO LITERALISTA

Conceito de inspiração

Deus inspira autores humanos que escrevem com seus próprios estilos e contextos.

Deus dita palavra por palavra, sem mediação humana.

Leitura do texto

Busca o sentido pretendido pelo autor, considerando contexto.

Lê o texto como verdade factual absoluta, sem considerar contexto.

Uso da razão e da crítica

Usa ferramentas da exegese, história, linguística e teologia.

Rejeita qualquer análise crítica ou acadêmica.

Gostaria de deixar, como última consideração sobre tudo que vimos acima, o fato de que uma catequese bibliocêntrica deve, por óbvio, adotar a Lectio Divina como modo de leitura espiritual e catequética da Bíblia. O catequista deve buscar na Escritura a iluminação necessária para realizar seus encontros, porém, sem nunca deixar de conciliar essa iluminação com a Tradição e o sagrado Magistério. Imagine-se vivendo o Tempo do Advento e precisando dar um encontro catequético sobre o anúncio do nascimento de Jesus. Em princípio, poderíamos escolher apenas a passagem Lc 1, 26-45, sem o Cântico de Maria, o Magnificat (Lc 1, 46-56). Em termos de leitura orante, o sentido espiritual do anúncio do nascimento de Cristo ficaria incompleto sem o júbilo de Maria, que pela graça divina que age nela e quer agir no mundo, expressa o louvor de quem sabe dizer sim a vontade de Deus Pai.
Sendo assim, retorno ao nosso quadro comparativo acima sobre as interpretações do Cântico. O fato de o Magnificat tratar da exaltação dos pobres e desvalidos por parte de Deus, não o coloca como uma trombeta de guerra entre pobres e ricos. Nos lembra que, nós todos, pobres e ricos, somos chamados ao amor obediente à Deus. A posse material de bens ou de poder não é o objetivo do Cântico de Maria, mas sim, nos mostrar que Deus age em nossa vida conforme nossa fidelidade ao seu amor. Isso não significa que estaremos imunes a privações materiais!
Nesse ponto, se faz oportuno lembrar o que escreve o Pe. Eusebio Sacristán Villanueva na tradicional prática devocional dos Sete Domingos com São José: "pobres do mundo, procurai que não vos falte Jesus e sua divina graça, e se depois experimentardes algumas privações, lembrai-vos que isso e mais sofreu Jesus. Não é desonra ser pobre." O trecho é retirado da reflexão do 5º Domingo, quando se considera toda a privação pela qual passou a Sagrada Família quando teve que fugir para o Egito. No mesmo sentido, o Papa Leão XIV afirma que

[...] a Igreja está sempre pronta para tudo por amor, que está sempre do lado dos últimos, dos pobres, e que sempre defenderá o direito sacrossanto de crer em Deus, de crer que esta vida não está à mercê dos poderes deste mundo, mas é atravessada por um significado misterioso. Só o amor é digno de fé, diante da dor dos inocentes, dos crucificados de hoje [...]. (Papa Leão XIV, discurso aos núncios apostólicos, 10/06/25)

Então, que não deixemos que vieses materiais, políticos e ideológicos, independente do lado que defende, comprometam nossa leitura espiritual da Bíblia. Todo projeto político, é projeto de poder, e projeto de poder não é o projeto do Reino de Deus. Portanto, se na nossa leitura orante, particular em em encontro catequético, levamos vieses políticos, não estamos fazendo leitura orante e consequentemente não estamos alimentando nossa fé ou saciando nossa sede de Deus.
Espero que o texto possa ter ajudado todos, catequistas ou não, a conhecer a leitura orante e poder usá-la na sua vida de oração ou no ministério catequético. Em breve, trarei uma postagem detalhando o método de como praticar a Lectio Divina. Fraterno abraço e até lá!

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SOBRE MIM

Pai, esposo, devoto de São José e catequista que, entre idas e vindas, fui mais uma vez resgatado pelo amor do Pai e desejo compartilhar experiências, dúvidas e conhecimentos sobre catequese e tudo que a ela se relaciona.

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