Encontrando a Palavra: introdução à Sagrada Escritura na catequese
- 30 de jan.
- 9 min de leitura
Atualizado: 31 de jan.

Se a catequese deve ser bibliocêntrica como apontam os diretórios de catequese da Santa Sé, o Diretório Nacional de Catequese e outros documentos da CNBB, é natural que a segunda etapa do processo catecumenal se inicie com uma introdução geral às Sagradas escrituras para que catecúmenos e catequizandos que tenham pouco ou nenhum contato com a Bíblia possam conhecer o mínimo necessário sobre sua composição e manuseio diário, seja para estudar ou para fazer a leitura orante, ou seja para rezar com Bíblia.
Importante destacar que nossos cronogramas não devem reservar o tema "Bíblia" apenas para o mês de Setembro, no qual a Igreja no Brasil dedica de forma especial ao estudo e reflexão dos textos sagrados. No mês da Bíblia, é mais proveitoso realizarmos ao menos um dos quatro encontros dedicados ao livro bíblico escolhido pela CNBB. Agora acompanhe comigo uma sugestão de encontro para introduzir a Sagrada Escritura aos nossos jovens e adultos.
Estrutura do Encontro
1. Acolhida/Oração Inicial
2. Motivação
3. Iluminação Bíblíca
4. Dinâmica
5. O que é a Bíblia
6. Oração Final
Detalhamento da Estrutura
1. Para a acolhida acredito que seja algo mais particular para cada turma. Os catequistas podem pensar em opções que se adequem melhor ao perfil de suas turmas. Usar cantos ou mesmo dinâmicas que ajudem a acolher os participantes. O importante é não faltar ao menos um sorriso e um aperto de mão. Seguida da acolhida, vem a oração inicial que pode ser espontânea, previamente elaborada pelos catequistas ou ainda, uma oração de um Santo(a) que destaque a Sagrada Escritura.
2. Como texto introdutório e motivação para o tema do encontro sugiro a metáfora da Bíblia como um bosque, um dos primeiros textos que escrevi aqui no Antigo Ministério. Além de vocês mesmos poderem ler nosso texto e resumirem para a motivavação do encontro de vocês, deixo uma sugestão para uso, caso queiram:
Podemos pensar na Bíblia como se fosse um bosque bem grande e cheio de caminhos. Ler (orar) pe estudar a Bíblia é como fazer várias trilhas nesse bosque: não dá para conhecer tudo de uma vez só, porque sempre tem algo novo para descobrir. Cada vez que a gente lê, entende um pouco mais, e essas descobertas vão se juntando, ajudando a montar o quebra-cabeça. Assim, o conhecimento sobre a Bíblia vai crescendo aos poucos, cada parte completando a outra, e a gente vai entendendo melhor o que Deus quer mostrar para nós.
Assim como ninguém conhece um bosque só olhando de longe, a gente só entende a Bíblia de verdade quando lê e explora suas histórias, personagens e orações várias vezes. Quanto mais você se dedica a ler e refletir sobre a Bíblia, mais vai se familiarizando com ela e descobrindo coisas novas. Esse processo é como fazer várias caminhadas pelo bosque: cada trilha revela um detalhe diferente e, aos poucos, tudo vai fazendo mais sentido.
3. Como iluminação bíblica proponho Jo 1, 1-18 (o prólogo de João). Uma forma muito rica de usar essa passagem na introdução geral à Sagrada Escritura é enxergá-lo como uma chave que ilumina tudo aquilo que a Igreja ensina sobre a Bíblia: sua origem, sua unidade e seu objetivo. O prólogo mostra que a Palavra de Deus não é primeiro um livro, mas uma Pessoa. Antes de existir qualquer texto bíblico, já existia o Logos, eterno, junto do Pai. Isso ajuda os jovens a entenderem que a Escritura nasce de um movimento maior: Deus se comunica, Deus fala, Deus se revela. A Bíblia é fruto dessa iniciativa divina.
Outro ponto essencial é que João apresenta a Palavra como luz e vida. Isso dialoga diretamente com o que se ensina na introdução bíblica: a Escritura não é apenas informação religiosa, mas iluminação para a vida humana. Ela revela quem somos, quem é Deus e como caminhar na verdade. A tensão entre luz e trevas ajuda a compreender por que a Bíblia também denuncia o pecado e chama à conversão.
Outro destaque importante é a alusão à história da salvação: criação, êxodo, lei, profetas e, finalmente, Jesus. Isso reforça um princípio fundamental da introdução bíblica: a Bíblia é uma única história, com etapas diferentes, mas conduzida pelo mesmo Deus. João mostra que tudo converge para Cristo, a Palavra feita carne. Assim, os jovens percebem que o Antigo Testamento não é “superado”, mas cumprido em Jesus.
A ideia de que o Verbo “armou sua tenda” entre nós ajuda a entender a inspiração bíblica: Deus entra na história, fala através de pessoas reais, em culturas concretas, usando linguagem humana. A encarnação é o modelo da própria Escritura: divina e humana ao mesmo tempo. Por fim, o prólogo revela que a Bíblia tem um objetivo: conduzir ao encontro com Deus, tornando-nos seus filhos. Isso dá sentido ao estudo bíblico: não é só aprender, mas deixar-se transformar. A síntese disso pode ser da seguinte forma:
“No princípio era a Palavra” (Jo 1,1-3): João começa afirmando que Jesus, a Palavra, já existia antes de tudo e estava com Deus. Por meio dela, tudo foi criado, mostrando que Jesus vem de Deus e participa da criação do mundo.
Vida e luz para a humanidade (Jo 1,4-5): A Palavra é fonte de vida e essa vida se manifesta como luz, que dá sentido à existência humana. Mesmo quando as trevas tentam apagá-la, a luz de Deus permanece vencedora.
João Batista: a testemunha da luz (Jo 1,6-8): João Batista é enviado por Deus para apontar o caminho e ajudar as pessoas a reconhecer Jesus. Ele não é a luz, mas testemunha dela, preparando os corações.
A luz veio ao mundo… mas foi rejeitada (Jo 1,9-11): Jesus, a luz verdadeira, entrou no mundo que foi criado por Ele, mas não foi reconhecido por todos. Muitos preferiram rejeitá-lo, revelando a resistência humana à ação de Deus.
Acolher Jesus é tornar-se filho de Deus (Jo 1,12-13): Quem acolhe Jesus pela fé recebe o dom de se tornar filho ou filha de Deus. Essa nova vida é um presente que vem do amor de Deus, não do esforço humano.
“A Palavra se fez carne” (Jo 1,14): Deus se fez humano em Jesus e veio morar no meio das pessoas. Assim, Ele se aproxima da nossa realidade e revela sua glória cheia de amor e verdade.
Jesus traz a plenitude da graça (Jo 1,15-17): Em Jesus recebemos graça em abundância. A Lei dada por Moisés encontra sua plenitude em Cristo, que revela plenamente o amor de Deus.
Jesus revela quem é Deus (Jo 1,18): Jesus, que vive em íntima comunhão com o Pai, veio nos mostrar quem Deus é. Conhecer Jesus é conhecer o próprio Deus.
4. A dinâmica pode ser feita logo após a iluminação bíblica dando o gancho para o momento de se explicar o que é a Bíblia para a Igreja, ou pode ser feita após esse momento como forma de compreender como foi a composição dos livros sagrados. Para sua realização é necessário o seguinte texto (resumo do conteúdo de toda a Sagrada Escritura em 2 parágrafos):

Para desenvolver a dinâmica vamos seguir os seguintes passos:
Leitura completa do texto acima pelos catequistas. O texto deve ser impresso em folha em separado para que sejam recortadas as 10 partes que o compõe.
Distribuição dos fragmentos do texto para os narradores (5 do AT e 5 do NT) que terão um breve tempo para ler e interpretar o escrito:
Antigo Testamento - Desde o princípio, Deus se revelou aos homens como Aquele que chama à vida e à comunhão.
Criou o mundo bom e confiou-o à humanidade, mas a liberdade ferida pelo pecado rompeu essa harmonia original.
Ainda assim, Deus não abandonou sua obra: buscou o homem, fez alianças e iniciou um caminho pedagógico de salvação.
Chamou Abraão, prometendo-lhe uma descendência e uma terra, formou um povo a partir de Israel, libertou-o da escravidão do Egito e lhe deu a Lei como sinal de pertença e orientação de vida.
Por meio dos juízes, reis e profetas, foi educando esse povo na fé, corrigindo suas infidelidades e alimentando a esperança de uma salvação definitiva, anunciada como um novo coração, uma nova aliança e um Messias que restauraria plenamente a comunhão entre Deus e a humanidade.
Novo Testamento - Na plenitude dos tempos, essa promessa se cumpriu em Jesus Cristo, o Filho eterno feito homem.
Em sua vida, palavras, gestos e entrega total na cruz, Deus revelou-se de modo pleno e definitivo como amor que salva.
Pela ressurreição, Cristo venceu o pecado e a morte, inaugurando uma nova criação.
Do seu mistério pascal nasceu a Igreja, chamada a prolongar no tempo a obra da salvação, anunciando o Evangelho, celebrando os sacramentos e formando discípulos.
Conduzida pelo Espírito Santo, a Igreja caminha na história aguardando a consumação final, quando Deus será tudo em todos, e a humanidade, reconciliada, participará plenamente da vida divina prometida desde o princípio.
Divisão dos participantes em equipes: narradores do AT, Narradores do NT, escribas do AT e escribas do NT (se a quantidade de pessoas não permitir, pode-se fazer apenas um grupo de escribas para o AT e o NT).
Narração dos trechos do AT ao grupo 01 dos escribas e narração dos trechos do NT ao grupo 02 dos escribas. A narração pode ser feita mais de uma vez (no máximo 3), mas sem pausas, evitando que os escribas façam a transcrição literal.
Os escribas podem ouvir e tomar nota do que estão ouvindo, mas sem interromper a narração. Ao final das narrações, os escribas de cada grupo vão se reunir e escrever a história contada pelos narradores.
Finalizada a escrita, vão entregar o resultado para os catequistas que, após a leitura para toda a turma, irão explicar o processo de elaboração da Bíblia ao longo dos séculos.

5. Para explicar o que é Bíblia o catequista deve recorrer ao Catecismo da Igreja Católica (nn. 101-133, e as introduções gerais disponíveis em suas Bíblias. Deixo como recurso mais um resumo, mas lembro que o catequista não deve abrir mão de ler o Catecismo e as introduções de disponíveis nas Bíblias. Encontramos também nessas introduções a expliocação do sistema de citações (livro, capítulo e versículo), que dever ser trabalho de forma prática com a turma.
O que é a Bíblia para a Igreja
Cristo – a Palavra viva da Bíblia: A Bíblia fala de muitas coisas, mas seu centro é uma pessoa: Jesus Cristo. Tudo o que está escrito nela aponta para Ele, ajuda a conhecê-Lo melhor e se completa n’Ele, que é a Palavra viva de Deus.
A Bíblia é inspirada por Deus e ensina a verdade: A Bíblia não é apenas um livro humano: ela foi escrita com a ajuda do Espírito Santo. Por isso, aquilo que ela ensina é verdadeiro e nos mostra o caminho certo para a salvação e para uma vida com Deus.
O Espírito Santo nos ajuda a entender a Bíblia: Para entender bem a Bíblia, não basta só ler: é preciso pedir a ajuda do Espírito Santo. Ele nos guia para compreender o sentido correto da Palavra, em união com a fé da Igreja.
Quais livros fazem parte da Bíblia: A Bíblia é formada por um conjunto de livros escolhidos e reconhecidos pela Igreja desde os tempos dos apóstolos (73 no total, sendo 46 no AT e 27 no NT). Esses livros são especiais porque ajudam os cristãos a conhecer a Deus e viver a fé.
A Bíblia na vida da Igreja e dos cristãos: A Palavra de Deus está no centro da vida da Igreja: ela é lida nas missas, ensinada na catequese e ajuda as pessoas a rezar, tomar decisões e viver como verdadeiros cristãos.
6. A oração final, da mesma forma que a inicial, também pode ser conforme o perfil de suas turmas. Segue-se as mesmas proposições do item 1 deste texto. Contudo, já deixo pra vocês uma oração que pode se ajustar ao conteúdo da forma como está ou pode ser editado por vocês para deixar mais com a cara do grupo e do encontro planejado.
Senhor Jesus, Palavra eterna do Pai, luz que veio ao mundo,
nós Te agradecemos porque não ficaste distante,
mas Te fizeste carne e vieste morar no meio de nós.
Ilumina nossos corações para que não escolhamos as trevas,
mas saibamos reconhecer tua presença em nossa vida diária.
Dá-nos a graça de Te acolher com fé, para vivermos como verdadeiros filhos e filhas de Deus.
Faz de nós testemunhas da tua luz, como João Batista, para que, com nossas atitudes, revelemos ao mundo o amor fiel e a verdade que vêm do Pai. Amém.
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