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Mistério Pascal, Liturgia e Sacramentos

20 de ago.
6 min de leitura

Neste artigo veremos, brevemente, a relação entre o Mistério Pascal, a liturgia e os sacramentos, mostrando como a Igreja celebra e torna presente a obra salvadora de Cristo por meio de ritos, sinais e ações sacramentais. Ao percorrer a origem e o sentido da liturgia, destaca que os sacramentos, instituídos por Jesus e confiados à Igreja, comunicam a graça, fortalecem a fé e antecipam a plenitude da vida eterna.


Mistério Pascal e Liturgia


Na profissão de fé nós confessamos o mistério da Santíssima Trindade e seu projeto amoroso para toda a criação iniciado na história com Abraão e consumado no mistério pascal de Cristo: sua paixão, morte, ressurreição e ascensão gloriosa ao céu. A revelação desse mistério se dá como história sagrada sempre em movimento. Nessa história há a intervenção súbita e concreta de Deus para

“se aproximar amorosamente de suas criaturas, dos quais espera o livre desejo de inserção em seu Reino.” (Scherer, 2016, p. 31).

Para participar desse mistério de amor, por meio do qual Cristo operou nossa salvação, é preciso celebrá-lo por meio de ritos, gestos, sinais e símbolos. Por isso existe a liturgia, para que através da celebração do mistério pascal o povo de Deus tome parte em sua obra de salvação.

Originalmente a liturgia (leitourghía, no grego) era concebida como o serviço do povo em favor do povo, uma obra ou ação pública em favor do bem comum, mas sem sentido religioso. O sentido religioso se deve ao uso da palavra na tradução grega (LXX) para designar o serviço sacerdotal e levítico no contexto do judaísmo do Antigo Testamento, diferenciando o culto oficial (público) do culto privado.

Na Igreja primitiva eram praticados vários ritos em torno do mistério pascal, porém, ainda não eram chamados de “liturgia”, mas sim de “obra”, “ofício”, “serviço”, “dever”, deixado por Cristo para ser realizado. Porém, todos esses ritos já continham os sinais, símbolos e ações que a Igreja entendeu como sendo o culto cristão. Assim, ao menos desde o séc. II, o rito da celebração eucarística já tinha o principal do que conhecemos hoje, como podemos ver no texto de São Justino Mártir:

[...] Em seguida, é levado ao presidente dos irmãos pão e um copo de vinho misturado com água; e ele, tomando-os, dá louvor e glória ao Pai do universo, por meio do nome do Filho e do Espírito Santo, e oferece muitos agradecimentos por termos sido considerados dignos de receber essas coisas de Suas mãos. E quando ele conclui as orações e ações de graças, todas as pessoas presentes expressam sua concordância, dizendo Amém. [...]. E quando o presidente dá graças, e todas as pessoas expressaram sua concordância, aqueles que são chamados por nós diáconos dão a cada um dos presentes para participar do pão e do vinho misturado com água sobre o qual foi proferida a ação de graças, e para os ausentes levam uma parte. E este alimento é chamado entre nós Εὐχαριστία (a Eucaristia), [...]. Pois não os recebemos como pão e bebida comuns; mas da mesma maneira que Jesus Cristo nosso Salvador, tendo sido feito carne pela Palavra de Deus, tinha carne e sangue para nossa salvação, da mesma forma fomos ensinados que o alimento que é abençoado pela oração de Sua palavra, e da qual nosso sangue e carne por transmutação são nutridos, é a carne e o sangue daquele Jesus que se fez carne. Pois os apóstolos, nas memórias compostas por eles, que são chamadas de Evangelhos, nos transmitiram assim o que lhes foi ordenado; que Jesus tomou o pão e, dando graças, disse: “Façam isto em memória de Mim, este é o Meu corpo”; e que, da mesma maneira, tendo tomado o cálice e dado graças, disse, “Este é o Meu sangue”; e deu apenas isto a eles. (Apologias de Justino Mártir, séc. II).

Portanto, a liturgia é a expressão da participação dos homens na obra de Deus por meio do culto divino e do anúncio do Evangelho. Ela é obra de Cristo, ação da Igreja e fonte de vida no Espírito Santo que implica a participação consciente, ativa e frutuosa de todos. Ela é o culto público da Igreja no qual Cristo honra ao Pai e a Igreja honra à Cristo por meio de sinais sensíveis que santificam aqueles que tomam parte nesse culto.

Cristo é o sinal primordial da obra de salvação realizada por Deus; a Igreja é sinal e instrumento de Cristo, animada pelo Espírito Santo; na Liturgia o povo participa da obra de salvação celebrando o Mistério Pascal.



Sacramentos


“Toda a vida litúrgica da Igreja gravita em torno do sacrifício eucarístico e dos sacramentos.” (CIgC,1113)

Os sacramentos não consistem em simples ritos e símbolos religiosos criados pela comunidade cristã. São ações do próprio Cristo ressuscitado, que continua comunicando sua graça por meio da Igreja. Assim, toda a ação sacramental nasce do Mistério Pascal (paixão, morte, ressurreição e glorificação de Cristo) e é por ele que Deus continua santificando o seu povo.

A palavra "sacramento" vem do latim sacramentum, que significa "modo sagrado" ou "maneira sagrada" (Pereira, 2019) e Igreja passou a usá-la como forma de transmitir o sentido da palavra grega mysterión (em latim, mysterium). O conceito grego está ligado aos "mistérios de Elêusis", cidade grega que cultuava Perséfone e Deméter. Os "mistérios" eram revelados àqueles que se iniciavam no culto àquelas deusas. Já o conceito cristão, dado por São Paulo, se refere ao Mistério Pascal de Cristo prefigurado na páscoa judaica e que a partir do século IV designa, para além dos sete sacramentos, toda a realidade litúrgica da Igreja (Scherer, 2016; Pereira, 2019).

Assim, o mystérion/mysterium, em sentido cristão, significa uma realidade divina antes oculta e agora revelada em Cristo, ou seja, o plano salvífico de Deus que se revelou para nós. Portanto, na catequese realiza-se a introdução aos mistérios de Cristo e da Igreja, vivida principalmente por meio da prática da fé e da celebração sacramental. Sendo os sacramentos os meios visíveis pelos quais se comunica o Mistério de Cristo, é na catequese que se ensina sobre a fé e na liturgia é onde se celebra essa fé.

Para entendermos melhor os sacramentos precisamos compreender bem cinco aspectos fundamentais:

  • A Igreja professa que todos os sete sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo. Durante sua vida pública, Cristo já antecipava, por suas palavras e ações, a eficácia salvadora que seria plenamente manifestada em sua Páscoa. Depois da Ressurreição, Ele continua agindo sacramentalmente na Igreja. ou seja, Cristo é o autor dos sacramentos, neles Jesus permanece vivo e atuante.

“O que no nosso Salvador era visível, passou para os seus mistérios.” (São Leão Magno)
  • A Igreja administra aquilo que recebeu de Cristo. Os sacramentos pertencem à Igreja porque: foram confiados por Cristo à Igreja; são celebrados pela Igreja; e edificam continuamente a própria Igreja. A ação sacramental não pertence ao ministro, mas ao próprio Cristo. O sacerdócio ministerial garante a autenticidade da ação sacramental. Igreja: fiel administradora dos sacramentos na qual Cristo age por meio dos ministros ordenados.

“Os sacramentos fazem a Igreja.” (CIgC 1118)
  • Quanto a relação entre fé e sacramentos, devemos lembrar que a fé conduz aos sacramentos e os sacramentos fortalecem a fé. A evangelização conduz ao encontro com Cristo, e esse encontro culmina na celebração dos sacramentos. Ao mesmo tempo, os sacramentos alimentam e fazem crescer a fé recebida. Os sacramentos estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e, por fim, a prestar culto a Deus. Dessa forma, “a lei da oração é a lei da fé” (lex orandi, lex credendi): aquilo que a Igreja celebra manifesta aquilo que ela acredita. Por isso:

“Nenhum rito sacramental pode ser modificado ou manipulado ao arbítrio do ministro ou da comunidade.” (CIgC 1125)
  • Os sacramentos realizam aquilo que significam, não apenas simbolizam a graça, eles realmente a comunicam porque o próprio Cristo age neles. A eficácia dos sacramentos depende da ação de Cristo, e não da santidade pessoal do ministro ou da pessoa que o recebe. Sua eficácia é, portanto, ex opere operato. Entretanto, seus frutos dependem também da disposição espiritual de quem os recebe.

“Celebrados dignamente na fé, os sacramentos conferem a graça que significam.” (CIgC 1127)
  • Os sacramentos antecipam a glória futura. Toda celebração litúrgica possui uma dimensão do por vir. Ao celebrar os sacramentos, a Igreja participa desde agora da vida eterna, enquanto caminha para sua plenitude. Os sacramentos possuem três dimensões inseparáveis: a rememorativa, que recorda a Paixão de Cristo; a demonstrativa, que comunica a graça no presente; e a prognóstica, que anuncia a glória futura.

“A Igreja celebra o mistério do seu Senhor até que Ele venha.” (CIgC 1130)

Por fim, os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais recebemos a vida eterna. Eles são celebrados nos ritos por meio de sinais sensíveis e visíveis que significam e realizam as graças próprias de cada um deles.


Assim concluímos nosso artigo de hoje. Espero que tenham gostado e que possa ser útil à todos os leitores, especialmente aos catequistas que nos acompanham. Grande abraço, fiquem com Deus e até a próxima.

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SOBRE MIM

Pai, esposo, devoto de São José e catequista que, entre idas e vindas, fui mais uma vez resgatado pelo amor do Pai e desejo compartilhar experiências, dúvidas e conhecimentos sobre catequese e tudo que a ela se relaciona.

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