top of page

Profissão de Fé: “aquele existir em conjunto que chamamos de Igreja”

  • 8 de jul.
  • 6 min de leitura

A profissão de fé ocupa um lugar central na vida cristã porque expressa, em poucas palavras, a resposta livre e consciente do homem ao Deus que se revelou na história da salvação. Ao proclamar "Creio", o fiel não apenas aceita um conjunto de verdades reveladas, mas entrega toda a sua existência àquele que se manifestou em Jesus Cristo e continua presente na ação do Espírito Santo. Por isso, compreender a profissão de fé significa compreender também a própria identidade da Igreja e o sentido da vida cristã.

Símbolo Apostólico
Símbolo Apostólico
Antes de qualquer coisa, precisamos iniciar entendendo o que significa professar. Esse verbo tem sua essência de sentido ligada ao ato de declarar abertamente, de testemunhar em público algo que trazemos dentro de nós, como um conhecimento, um sentimento ou uma crença. Quando ensino sobre as relações entre o homem e o espaço eu professo Geografia (exerço o ensino dela); quando defendo ideias e conceitos teológicos, estou professando convicções a respeito de Deus; quando confesso um ato praticado, estou professando (confessando) minha responsabilidade por tal ato.
Para apreendermos seu sentido no campo da fé, faz-se necessário lembrar o que vem a ser a própria fé. A fé é o ato fundamental do homem em relação à Deus. Sendo Deus fiel e leal, cabe ao homem entregar-se confiantemente a Ele. Crer em Deus e em Jesus, Seu filho que O revela a nós, nos santifica e esse processo de acreditar se traduz em obras. Como nos lembra o autor da Carta aos Hebreus
A fé é a certeza do que se espera e a prova do que não se vê. De fato, por ela, os antigos receberam um bom testemunho. Pela fé, compreendemos que os séculos foram formados pela palavra de Deus; o que se vê surgiu do que não aparece. Sem fé, é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima deve crer que ele existe e que recompensa os que o buscam. (Hb 11, 1-3.6)

Sendo assim, professar a fé é declarar e testemunhar para o mundo que não apenas acreditamos em Deus, mas testemunhamos suas obras e defendemos seu nome em todo e qualquer lugar por onde andemos. Declaramos pessoalmente uma realidade que é vivida de maneira comunitária e eclesial. Daí vem a frase citada no título, extraída da seguinte afirmação do Papa Bento XVI[1]: “Portanto, faz parte essencial da fé a profissão, a palavra e a unidade criada pela palavra; pertence-lhe o ingresso na liturgia da comunidade e, afinal, aquele estar-com-os-outros a que chamamos Igreja.” (Ratzginger, 1970, p. 62).
Antes de prosseguirmos convém destacar que profissão de fé não é uma oração. Como nos lembram os padres H. Carvalho e R. Giron
“a oração é sempre um diálogo dirigido a Deus, à sua Mãe ou a um santo. No Creio não se pede, não se agradece nem há súplica, mas se afirmam conteúdos de fé, objetos da nossa crença, verdades em que cremos e professamos.” (Carvalho; Giron, 2017, p, 14, grifo meu)[2].
O Catecismo da Igreja Católica[3] ensina que a fé é a resposta adequada do homem ao convite amoroso de Deus. O Senhor, que toma a iniciativa de revelar-se, chama o ser humano à comunhão consigo, e a resposta a esse chamado consiste na "obediência da fé", isto é, na submissão livre da inteligência e da vontade à Palavra divina. Essa resposta possui um caráter profundamente pessoal, pois cada pessoa é convidada a aderir a Deus com todo o seu ser. Contudo, ela jamais é individualista, porque nasce da Igreja, é sustentada pela Igreja e conduz novamente à Igreja. O "eu creio" somente é possível porque antes existe o "nós cremos" da comunidade dos discípulos, que recebeu dos Apóstolos o depósito da fé e o transmite fielmente através das gerações.
Essa dimensão eclesial ajuda a compreender a origem histórica do Credo. Conforme explica Joseph Ratzinger, a forma mais antiga da profissão de fé nasceu no contexto da celebração do Batismo durante os séculos II e III. Inspirada diretamente no mandato missionário de Cristo, "Ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19), a liturgia apresentava ao catecúmeno três perguntas sucessivas: "Crês em Deus Pai?", "Crês em Jesus Cristo?" e "Crês no Espírito Santo?". A cada pergunta correspondia a resposta simples: "Creio", acompanhada pela imersão nas águas batismais. A profissão de fé, portanto, nasceu como um diálogo, inserido quando o homem abandonava a antiga vida para ingressar na comunhão com Cristo e sua Igreja. Somente mais tarde essa fórmula dialogal recebeu ampliações, especialmente na parte referente a Cristo, até assumir a forma contínua conhecida atualmente como Símbolo Apostólico.
Essa origem litúrgica revela um aspecto decisivo da teologia do Credo. Para Ratzinger, a fé não surgiu como um tratado de doutrina nem como uma coleção de conceitos abstratos. Antes de ser um texto, ela é um acontecimento de conversão. O "Creio" está inseparavelmente unido ao "Renuncio" pronunciado no Batismo, indicando que a profissão de fé implica uma mudança radical de direção, uma transformação da existência. Crer significa abandonar tudo aquilo que se opõe ao Reino de Deus para aderir plenamente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. A fé, portanto, não consiste apenas em aceitar intelectualmente determinadas verdades, mas em orientar toda a vida segundo essas verdades, permitindo que elas moldem pensamentos, escolhas e atitudes.
A estrutura do Credo conserva essa origem batismal. Organizado segundo a profissão da fé trinitária, ele apresenta três grandes artigos: a fé em Deus Pai, Criador de todas as coisas; a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus e nosso Redentor; e a fé no Espírito Santo, que santifica a Igreja e conduz os fiéis à vida eterna. Essa organização não é arbitrária, mas manifesta o próprio modo como Deus realizou a obra da salvação. Toda a economia da Revelação procede do Pai, realiza-se plenamente no Filho e continua eficaz pela ação do Espírito Santo. Assim, quando a Igreja proclama o Credo, não enumera simplesmente doutrinas isoladas; ela contempla a unidade do plano salvífico de Deus e reconhece a ação harmoniosa das três Pessoas divinas na criação, na redenção e na santificação.
Símbolo Apostólico e Símbolo Niceno-Constantinopolitano
Símbolo Apostólico e Símbolo Niceno-Constantinopolitano

O Catecismo recorda ainda que a profissão de fé não se reduz às palavras pronunciadas. As fórmulas do Credo possuem enorme importância porque preservam e transmitem fielmente o conteúdo da Revelação, mas o ato de fé ultrapassa o simples enunciado verbal. O cristão não acredita nas palavras enquanto tais, mas nas realidades divinas que elas exprimem. As fórmulas constituem uma linguagem comum que permite confessar, celebrar, ensinar e aprofundar a mesma fé recebida dos Apóstolos. É por isso que, apesar da diversidade de povos, culturas e línguas, a Igreja conserva uma única profissão de fé, reconhecendo nela a unidade da Tradição apostólica e a continuidade da mesma verdade revelada por Cristo.
Ratzinger amplia essa compreensão ao explicar o significado da própria palavra "símbolo". Na tradição antiga, o símbolo era um objeto dividido em duas partes, cujas metades permitiam reconhecer aqueles que pertenciam à mesma aliança. Analogamente, o Símbolo da Fé representa aquilo que une os cristãos entre si e os introduz na comunhão com Deus. Cada fiel possui apenas uma "parte" desse grande símbolo, pois ninguém crê sozinho nem esgota, individualmente, a riqueza do mistério cristão. Somente na comunhão da Igreja, reunida pela mesma profissão de fé e pela mesma liturgia, o símbolo alcança sua plenitude. Assim, a fé possui uma dimensão necessariamente comunitária: ela nasce da escuta da Palavra anunciada, é acolhida na comunidade dos crentes e conduz novamente à comunhão eclesial.
Essa perspectiva permite compreender por que o Credo permanece atual mesmo após quase dois mil anos. Sua permanência não decorre apenas da antiguidade de sua formulação, mas do fato de conservar intacta a experiência fundamental da Igreja diante da Revelação. O Catecismo ensina que a fé é um dom da graça, mas também um ato autenticamente humano, no qual inteligência e vontade cooperam com a ação do Espírito Santo. Por isso, a profissão de fé nunca pode ser reduzida a um hábito cultural ou a uma simples repetição litúrgica. Cada vez que o cristão proclama "Creio", renova livremente sua adesão ao Deus vivo, fortalece sua comunhão com a Igreja e reafirma sua esperança na vida eterna.
Dessa forma, o Credo revela-se simultaneamente memória, compromisso e esperança. Memória, porque conserva fielmente aquilo que Deus realizou na história da salvação; compromisso, porque exige uma existência coerente com a fé professada; e esperança, porque orienta toda a vida para o encontro definitivo com Deus. Ao recitá-lo liturgicamente, o cristão não apenas recorda verdades do passado, mas renova sua resposta ao chamado divino, unindo sua voz à de toda a Igreja espalhada pelo mundo. Assim, a profissão de fé permanece um convite permanente para que cada discípulo passe das palavras à vida, da simples repetição à adesão consciente e amorosa, fazendo do "Creio" não apenas uma fórmula aprendida, mas a expressão cotidiana de uma existência inteiramente confiada ao Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

[1] RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo: preleções sobre o Símbolo Apostólico. São Paulo: Herder, 1970

[2] CARVALHO, Humberto; GIRON, Rafael. Creio: a profissão de fé explicada aos catequistas. 2 reimp. São Paulo: Paulus, 2017.

[3] SANTA SÉ. Catecismo da Igreja Católica. 5. Ed. Brasília: Edições CNBB, 2023.         

Comentários


SOBRE MIM

Pai, esposo, devoto de São José e catequista que, entre idas e vindas, fui mais uma vez resgatado pelo amor do Pai e desejo compartilhar experiências, dúvidas e conhecimentos sobre catequese e tudo que a ela se relaciona.

ACOMPANHE TAMBÉM
MEUS PERFIS
  • Tópicos
  • X
  • Instagram
bottom of page