O "Filho do Homem" no Cap 7 de Daniel: Aparência Humana, Condição Divina
O capítulo 7 marca uma mudança importante no livro de Daniel. Até o capítulo seis predominavam os relatos históricos sobre Daniel e seus companheiros na corte da Babilônia. A partir deste ponto, Daniel passa a narrar as visões que recebeu de Deus. Inicia-se a parte apocalíptica do livro (Dn 7–12), caracterizada pelo uso de símbolos e imagens para revelar o sentido da história. O objetivo dessas visões não é satisfazer a curiosidade sobre o futuro, mas fortalecer a esperança do povo de Deus, mostrando que nenhum poder humano é capaz de impedir a realização do Reino do Senhor.
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A visão começa com o grande mar agitado pelos quatro ventos do céu. Na Bíblia, o mar simboliza o caos e as forças que se opõem à ordem estabelecida por Deus. É desse mar revolto que surgem as quatro feras, representando os grandes impérios da história. Segundo a interpretação do próprio livro, trata-se dos impérios babilônico, medo, persa e grego, este último visto especialmente na figura de Antíoco IV Epífanes, perseguidor do povo judeu na primeira metade do século II a.C., período em que o livro de Daniel foi escrito. A quarta fera ultrapassa todas as anteriores em crueldade, tornando-se símbolo do poder político que perde completamente sua humanidade.
Tomando a palavra, Daniel disse: “Contemplava minhas visões noturnas, e vi que os quatro ventos do céu agitavam o Grande Mar. Quatro feras enormes saíam do mar, uma diferente da outra. A primeira era como um leão e tinha asas de águia; enquanto eu observava, arrancaram suas asas e foi levantada da terra, foi levantada em pé sobre as duas patas, como um homem, e um coração humano lhe foi dado. E vi outra fera, a segunda, parecida com um urso; estava erguida de um lado e com três costelas na boca, entre seus dentes; e assim lhe foi dito: ‘Levanta-te, devora muita carne!’ Depois disso, enquanto observava, vi outra, como um leopardo; ela tinha quatro asas de pássaro sobre suas costas; tinha quatro cabeças, e lhe foi dado o poder. Em seguida, contemplei nas visões noturnas e vi uma quarta fera, terrível e assustadora, extraordinariamente forte; ela tinha enormes dentes de ferro; devorava, despedaçava e, o que sobrava, pisoteava com seus pés; era diferente de todas as feras precedentes e tinha dez chifres; 8 enquanto eu observava, olhei para seus chifres: eis que outro chifre, pequeno, despontou em meio a eles, diante do qual três dos chifres precedentes foram arrancados; eis que havia olhos, como olhos humanos, naquele chifre e uma boca que dizia palavras arrogantes. (Dn 7, 2-8)

A mensagem da visão é clara: os impérios podem mudar de nome, de governantes e de extensão, mas continuam seguindo a mesma lógica quando colocam o poder acima da justiça. Uma fera substitui a outra, porém nenhuma é capaz de instaurar um reino verdadeiramente humano. Daniel ensina que o problema da história não será resolvido simplesmente pela troca de um governo por outro, mas pela intervenção definitiva de Deus.
Em seguida, Daniel contempla um tribunal celeste presidido pelo Ancião, imagem que representa o próprio Deus que julga todas as nações. O julgamento recorda que o Senhor continua soberano, mesmo quando o mal parece triunfar. É nesse contexto que aparece a personagem central da visão: o “Filho do Homem” (ou a “figura humana”).
Segundo Alonso Schökel (tradutor e comentarista da Bíblia do Peregrino), o significado imediato da expressão aramaica (bar nasha') usada no original é simplesmente o de “ser humano” ou “homem” (portanto, uma figura humana), termo usado pelo autor sagrado para estabelecer um contraste direto com as quatro feras. Contudo, não apenas um homem, mas alguém que ultrapassa a própria condição humana, elevando-a a condição divina.
Esse contraste é fundamental para compreender a visão de Daniel. Enquanto os impérios se apresentam como animais ferozes, Deus faz surgir uma figura verdadeiramente humana. A mensagem é que o projeto divino para a história não consiste em substituir uma fera por outra mais forte, mas restaurar a humanidade segundo o plano do Criador. A oposição principal não é entre um ser divino e seres humanos, mas entre o humano e o desumano, entre o governo inspirado por Deus e os poderes que desfiguram a pessoa humana. Ao mesmo tempo, o personagem recebe um domínio universal e definitivo, característica que ultrapassa uma simples representação coletiva tal qual os governos que conhecemos.
Eu continuava observando em minhas visões noturnas, e eis que, com nuvens, vinha um como um filho de homem e foi até o Ancião de dias e para diante dele foi conduzido. Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu poder é um poder eterno, que não passará, e seu reino não será destruído. (Dn 7, 13-14).

Foi justamente essa dimensão que levou a tradição judaica posterior a reconhecer nessa figura um caráter messiânico e que nossa tradição católica vê uma prefiguração de Jesus. No Novo Testamento, Jesus aplica repetidamente a si mesmo o título “Filho do Homem”, mostrando que n'Ele a visão de Daniel alcança sua plenitude. Cristo é o verdadeiro homem, o representante perfeito do povo de Deus e aquele que recebe do Pai o Reino que jamais terá fim. Assim, a leitura cristã não substitui o sentido original da visão, mas o completa.
O capítulo 7 transmite, portanto, uma mensagem permanente de esperança. Os impérios passam, os governantes mudam e os poderes que parecem invencíveis desaparecem. Somente o Reino de Deus permanece para sempre. Daniel convida cada geração a não colocar sua confiança na força das “feras” da história, mas no Senhor, que conduz os acontecimentos com justiça e prepara um Reino onde a verdadeira humanidade, restaurada em Cristo, triunfará definitivamente.
Referências
BÍBLIA. A Bíblia. 3. reimp. Trad. Alessandra S. Viegas et al. São Paulo: Paulinas, 2025.
BÍBLIA. Bíblia Sagrada: edição pastoral. 88. reimp. Trad. Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin e José L. G. do Prado. São Paulo: Paulus, 2013.
BÍBLIA. Bíblia Sagrada: edição de estudos. 15. ed. Trad. Centro Bíblico Católico (texto bíblico); José J. Sobral (notas). São Paulo: Ave-Maria, 2022.
BÍBLIA. Bíblia do Peregrino. Trad. Ivo Storniolo e José Bortolini (texto bíblico); José R. Vidigal (introduções, notas, cronologia e vocabulário). São Paulo: Paulus, 2017.
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. Nova ed. rev. e ampl. 19. reimp. Trad. de Euclides Martins Balancin et al. São Paulo: Paulus, 2024.
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