Semana Santa: Prova de Amor Maior Não Há! (Parte 2)
- 17 de abr. de 2025
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“Como o Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, principalmente pelo seu mistério pascal, quando morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando renovou a vida, o sagrado Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor resplandece como o ápice de todo o ano litúrgico” (Normas Universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral, n. 18).
Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, a trajetória percorrida por Jesus na sua Paixão e Morte é a realização das exigências do seguimento: sofrimento, rejeição e morte nas mãos dos poderosos e dos estrangeiros (Mc 8, 31 e 10, 33). Para segui-lo em Seu Reino é preciso arcar com as exigências do seguimento, ou seja, não há ressurreição, sem cruz, sem morte do homem velho. “Se nós suportamos, por Cristo, nossas próprias tribulações e sofrimentos, devemos também reinar junto com Cristo na felicidade que é perpétua” (S. Tomás de Aquino). Lembremos o que nos diz São Bernardo: "Como são poucos, ó Senhor, aqueles que anseiam por vos seguir. E, no entanto, não há ninguém que não deseja ir a Vós, porque todo homem sabe que em vossa mão direita estão delícias que jamais se acabam. Todos Desejam vos apreciar, mas nem todos querem vos imitar. Eles reinariam desejosos convosco, mas se poupariam de sofrer convosco".
Assim, nesse espírito de seguimento sincero à Jesus, é que devemos celebrar e orar o Tríduo Pascal, "ápice de todo o Ano Litúrgico". Para entender melhor os elementos históricos e teológicos do Tríduo, recorremos as obras de Adolf Adam (O Ano Litúrgico: sua história e significado segundo a renovação litúrgica) e Edson Deretti (O Ano Litúrgico e Suas Principais Celebrações).
A Igreja primitiva celebrava a festa da Páscoa em apenas um dia, com toda a solenidade que lhe era devida. Entre os séculos II e III, os fiéis se preparavam para a celebração da Vigília Pascal com dois dias de jejum. Naquele período, a Vigília Pascal, conhecida como a "mãe de todas as vigílias", era vivida inicialmente em espírito de jejum e luto até a meia-noite, em memória da morte de Jesus. A partir desse ponto e até o amanhecer, a liturgia se transformava em uma celebração de alegria pela Ressurreição do Senhor. Durante toda a noite, realizavam-se leituras bíblicas, salmos e orações, culminando ao amanhecer com a oblação, ou seja, a Eucaristia, que encerrava o jejum e marcava o início do período de cinquenta dias de festa pascal, o Pentecostes.
No século seguinte, quando esta riqueza de conteúdo da festa da pascal foi delineando-se com maior precisão, registros como os de Santo Agostinho (354-430) revelam que a preparação para a Páscoa começava já na quinta-feira, com a celebração da instituição da Eucaristia. Foi então que se formou “o sacratíssimo Tríduo do Senhor crucificado, sepultado e ressuscitado” (S. Agostinho). Esse marco deu origem ao conceito do Tríduo Pascal, um período de três dias intensamente voltado para a preparação e celebração do mistério pascal, consolidando práticas litúrgicas que destacavam a importância central da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo na vida da Igreja. Assim, “as celebrações litúrgicas desse Tríduo, em sua totalidade, representam, a partir daí, a celebração anual propriamente dita do mistério pascal” (Adam, 1982, p. 65).
Abaixo, algumas notas históricas e teológicas sobre o Tríduo Pascal, período litúrgico que celebra os momentos centrais da fé cristã: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
a) A Missa da Ceia do Senhor
Com esta missa da noite de quinta-feira inicia-se o Tríduo Pascal. Este é o seu significado: é a celebração da última ceia, na véspera da Paixão de Cristo, durante a qual o Senhor Jesus, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1), ofereceu a Deus Pai seu Corpo e seu Sangue sob as espécies de pão e vinho, deu-os aos Apóstolos para comungarem e mandou-lhes que eles os oferecessem, em Sua memória.
Antes do século IV, a instituição da Eucaristia era celebrada na terça ou quarta-feira, pois a Quinta-feira antes da Páscoa ainda não estava associada ao Tríduo Pascal. Com o tempo, essa celebração passou a ser realizada na noite da Quinta-feira Santa, sob o nome de Feria V in Coena Domini (Quinta-feira na Ceia do Senhor), também chamada de Natale Calicis (Natal do Cálice). Um dos ritos que marcam esse dia, o lava-pés (sinal da entrega amorosa do Senhor e da sua recomendação do amor fraterno e do serviço), era originalmente praticado fora da Missa, como testemunha Santo Agostinho. No Missal de São Pio V (Séc. XVI), o lava-pés era previsto para ocorrer no final da celebração, mas, com a reforma litúrgica de 1969, passou a ser realizado logo após a homilia.

Por ser a Sexta-feira Santa um dia alitúrgico, tornou-se necessário conservar a Eucaristia da Quinta-feira Santa para ser distribuída na Celebração da Palavra do dia seguinte. Nos primeiros séculos, os fiéis levavam parte do Sacramento para casa e o consumiam na Sexta-feira Santa, mas, com o passar do tempo, a prática foi sendo abandonada, e a Eucaristia passou a ser guardada na Igreja. O rito de transladação da Eucaristia, inicialmente simples, foi enriquecido a partir do século XI com o uso de velas e incenso. A procissão, acompanhada por hinos, partia do altar e seguia até uma capela, interpretada simbolicamente como uma sepultura do Senhor, onde os fiéis faziam vigília. Contudo, na reforma litúrgica promovida pelo beato Paulo VI, a associação dessa capela com um sepulcro foi descartada, reforçando o caráter de adoração e preservação do Santíssimo Sacramento.
Na Quinta-feira Santa, a liturgia destaca o amor de Jesus até o fim, conforme o Evangelho de João (Jo 13,1). Durante a Última Ceia, Ele realiza gestos simbólicos como o lava-pés e a partilha do pão e do vinho, antecipando sua entrega total na cruz e a realização do Reino de Deus.
b) Sexta-feira da Paixão do Senhor
A Sexta-feira Santa, desde o século II, é tradicionalmente caracterizada pelo jejum pleno, sendo um dia em que, historicamente, nunca se celebrou a Eucaristia. Assim, foi estabelecida como um dia alitúrgico. Nos primeiros três séculos do cristianismo, não havia uma liturgia específica para a Sexta-feira Santa, mas, a partir do século IV, começou a se desenvolver uma celebração da Paixão do Senhor. Essa celebração, até o século VI, era composta basicamente pela Liturgia da Palavra e encerrada com a oração solene dos fiéis. O formulário usado atualmente deriva do século V, embora o estilo das orações remonte a um período ainda mais antigo.
No século VII, além da Liturgia da Palavra, foi introduzida a prática de comunhão dos fiéis na celebração da Paixão, ainda que ela tenha enfrentado mudanças ao longo dos séculos. O Papa Inocêncio I registrou que, na Sexta-feira e no Sábado Santo, os apóstolos jejuaram, originando a tradição de não celebrar os santos mistérios nesses dias. Esse jejum, tanto material quanto espiritual, simbolizava a ausência do Esposo, Cristo, e a expectativa do seu retorno.

A adoração da cruz, que surgiu pelo menos no século IV em Jerusalém, tornou-se uma prática significativa. Relatos como o da peregrina Egéria descrevem rituais nos quais o santo lenho da cruz era venerado de maneira solene pelos fiéis. Em Roma, desde o século VIII, uma procissão saía da Basílica de São João de Latrão em direção à Igreja da Santa Cruz, onde a relíquia era exposta e venerada pelo Papa, pelo clero e pelos leigos. Após essa adoração, realizava-se a proclamação da Palavra, e, posteriormente, os participantes retornavam à Basílica de São João para o rito da comunhão.
Na Sexta-feira Santa, os fiéis são conduzidos aos pés da cruz por meio da oração universal, intercedendo por diversas intenções, como pela Igreja, pelos governantes e pelos que sofrem. A celebração é marcada pela adoração da cruz, que simboliza a vitória de Cristo e sua morte salvífica. Mesmo nesse contexto de sacrifício, a liturgia não separa a morte de Cristo de sua Ressurreição.
c) Sábado Santo e a Vigília Pascal
O Sábado Santo, também conhecido como o dia da Sepultura, é, desde o século II, caracterizado por ser um dia de jejum completo e considerado alitúrgico. Nesse dia, nenhuma celebração sacramental ou serviço de oração ocorria, e o jejum era encerrado à meia-noite com a celebração da Vigília Pascal, que se estendia até o amanhecer do Domingo da Páscoa. Ao longo do tempo, o caráter alitúrgico do dia foi abandonado, e os ritos da Vigília passaram a ser antecipados para a manhã do Sábado Santo. Por esse motivo, muitas pessoas o denominam “Sábado do Aleluia”, apesar de o aleluia pertencer propriamente ao terceiro dia do Tríduo, o Domingo da Páscoa.
O Domingo da Páscoa, que marca o terceiro dia do Tríduo Pascal, tem raízes na tradição judaica. Antes do cristianismo, os judeus realizavam uma vigília noturna na noite de 14 de Nisã, em honra ao Senhor que os salvou, celebrando o êxodo do Egito e aguardando a vinda do Messias. Os cristãos adaptaram essa prática, instituindo a Vigília Pascal como uma celebração noturna em preparação à Ressurreição de Cristo. Em 325, o Concílio de Niceia resolveu a chamada “controvérsia pascal”, determinando que a Páscoa seria celebrada no domingo após a primeira lua cheia do outono (primavera no hemisfério norte).





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