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Fé: Os Olhos da Alma (Parte 1)

  • 1 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 7 de jul. de 2025

“O homem acreditou na Palavra de Jesus e partiu” (Jo 4, 50). Nesse Evangelho, da cura do filho do oficial, conforme os comentadores do texto original grego, temos uma construção linguística em dois trípticos narrativos, um no qual predomina a morte (“filho doente”, v. 46); “estava morrendo”, v. 47; “antes que meu filho morra”, v. 49) e outro no qual predomina a vida (“teu filho está passando bem”, vv. 50, 51 e 53). É como se tivéssemos duas pessoas debatendo, um pela morte, outro pela vida. A chave para se definir qual dos dois prevalecerá é a fé.

Crer é mais do que simplesmente olhar, é ver com os olhos da alma.
Crer é mais do que simplesmente olhar, é ver com os olhos da alma.
A fé na palavra de Jesus, que estava longe do filho enfermo, fez prevalecer a vida. pois como lembra Santo Agostinho, Deus é o Senhor de tudo. Seu mistério é inalcançável, pois aquele que é “ocultíssimo”, é também “presentíssimo”; é “imutável, embora tudo mude”; é “constante, embora incompreensível”; “nunca novo, nunca antigo” (Confissões, Livro I, cap. I).
Essa fé que precisamos, Agostinho a apreendeu e explicou no primeiro quartel do século V, no sermão De Fide Rerum Quae Non Videntur (ou Sobre a Fé nas Coisas que não se veem), o qual foi “motivado pelos equívocos ou mesmo os enganos daqueles que não professavam a fé cristã”, conforme nos diz Sílvia Maria Contaldo em seu artigo, “Agostinho: a fé tem olhos próprios”.
A fé, muitas vezes, é compreendida como um mergulho no desconhecido, uma adesão ao invisível que transforma a existência humana. O sermão em questão desenvolve essa ideia explorando diversos aspectos da fé cristã, sua fundamentação, desafios e implicações na vida cotidiana. A seguir, trazemos resumidamente as proposições de Santo Agostinho nesse sermão.
 
1.      Visão da Alma x Visão da Carne
 
Alguns zombam da religião cristã ao invés de aceitá-la, pois ela exige fé em coisas que não são visíveis. No entanto, para responder àqueles que consideram sensato não acreditar no que não podem ver, podemos demonstrar que é possível e necessário crer também no invisível. Embora não possamos apresentar a realidade divina aos olhos humanos, existem muitas coisas que acreditamos e conhecemos que não podem ser percebidas pelos olhos, como o próprio espírito humano (a razão), que é invisível por natureza.
Entre essas coisas, destacam-se a fé, que nos leva a acreditar, e o pensamento, que nos faz perceber se cremos ou não, ambas independentes da visão carnal. Essa percepção é clara à visão interior do espírito. Portanto, é racional acreditar naquilo que não podemos ver com os olhos do corpo, já que podemos distinguir com clareza, mesmo sem eles, se cremos ou não.
 
2.      A Fé é o Fundamento do Amor e das Relações Humanas
 
Alguns argumentam que não é necessário conhecer com os olhos do corpo as coisas do espírito, já que estas podem ser percebidas pelo próprio espírito. Contudo, reclamam que aquilo que pedimos para que creiam não é apresentado nem exteriormente, para ser conhecido pelos olhos do corpo, nem interiormente, para ser percebido pelo espírito ou pelo pensamento, como se alguém pudesse crer apenas naquilo que lhe fosse apresentado de forma visível.
No entanto, é necessário crer em realidades temporais que não vemos, para que possamos merecer contemplar a realidade eterna que não enxergamos. Assim, S. Agostinho pergunta aos que se recusam a crer no que não veem, “dize-me, com quais olhos vês a boa vontade do teu amigo para contigo?”. A questão é, se não se pode ver materialmente a boa vontade, como confiar e retribuí-la a um amigo?
De fato, a boa vontade não é uma cor ou forma visível, nem um som ou melodia captada pelos ouvidos, tampouco algo sentido pela afeição do coração. Assim, somos levados a crer no que não vemos, não ouvimos e não podemos perceber dentro de nós, para que nossa vida não seja vazia, desprovida de amizade, e para que possamos retribuir o amor que nos é oferecido.
Se em nosso coração, cremos em outro coração que não o nosso, depositando fé no que não se pode enxergar, nem com a mente, nem com a carne, como sustentar a afirmação de que só se deve crer no que é visível? Com os olhos reconhecemos a face do amigo, e com o espírito distinguimos nossa própria fé; mas a fé do amigo não pode ser amada se, em nós, não houver a fé necessária para crer no que nele não pode ser visto.
Ao reconhecer a boa vontade de um amigo, é necessário acreditar, mesmo sem ter acesso direto ao coração ou às intenções do outro, que permanecem invisíveis. Essa confiança prévia evidencia a fé nas relações humanas, onde as ações ou palavras são percebidas como manifestações externas de uma boa vontade interna que não pode ser vista ou ouvida diretamente. Além disso, apesar de a adversidade ser uma circunstância em que a amizade é testada, a fé no amigo precisa existir antes mesmo da prova concreta. Tal abordagem reforça que crer naquilo que não pode ser visto é uma condição essencial, tanto para a convivência humana quanto para a experiência espiritual, e essa crença antecede e sustenta qualquer comprovação. O ponto central aqui é, portanto, que o fundamento da confiança e do amor reside na fé no invisível, que permite a construção de vínculos genuínos e profundos.
A fé no invisível é fundamental para a sobrevivência das relações humanas. Sem a crença no amor, que não pode ser visto diretamente, toda amizade desapareceria, já que ela depende do amor recíproco. Isso se estenderia ao fim de outros laços afetivos, como os matrimoniais e familiares, que igualmente dependem da confiança em sentimentos invisíveis. O cônjuge não poderia retribuir o amor recebido, os filhos não amariam seus pais, e os vínculos de parentesco seriam marcados pela suspeita e desconfiança. A falta de fé no que não se vê criaria um caos nas relações humanas, desintegrando qualquer possibilidade de harmonia social. O bispo de Hipona denuncia que esse ceticismo, motivado por uma precaução exagerada, é uma atitude odiosa que corrói desde a raiz a convivência humana.
Além das relações humanas, o ceticismo em relação ao invisível também atinge outros aspectos importantes da vida em sociedade, como a tradição, a história e a aceitação de fatos que não são testemunhados diretamente. Essa falta de fé, que desrespeitaria até mesmo os genitores ao negar o relato de seu nascimento, comprometeria a própria sociedade, que pereceria sem concórdia e confiança mútua. Por isso, Agostinho conclui que a fé é ainda mais necessária nas questões divinas, que estão além da visão humana. Não acreditar no transcendente seria uma violação à religião suprema, acarretando infelicidade profunda. Assim, ele propõe que a fé no invisível é não apenas essencial para as relações humanas, mas também para a estruturação da sociedade e a adesão às verdades divinas.

2 comentários


Franciélio Miranda
Franciélio Miranda
01 de abr. de 2025

Toda a existência humana se estabelece a partir do invisível. Veja, a própria geração natural quando uma casal concebe um ser humano, parte de um princípio invisível, o desejo sexual como necessidade interior (invisível) e intuitiva de perpetuação da própria espécie, se tivéssemos que discutir a questão a partir de um ponto de vista meramente material.

E quanto a religião (por essa ótica), toda a estrutura fundamental é, por natureza, invisível, transcendental. O grande Dr da graça, Agostinho, certamente está com a razão ao fundamentar que crer no invisível é fundamento para a própria sociedade poder existir enquanto tal.

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Sísifo
Sísifo
01 de abr. de 2025
Respondendo a

Perfeitamente, Franciélio. Esquecemos que aquilo que somos de verdade é a nossa alma, não o nosso corpo. Espero que venham logo as outras partes do artigo.

Editado
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SOBRE MIM

Pai, esposo, devoto de São José e catequista que, entre idas e vindas, fui mais uma vez resgatado pelo amor do Pai e desejo compartilhar experiências, dúvidas e conhecimentos sobre catequese e tudo que a ela se relaciona.

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