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Santo Agostinho: Quando a Inteligência Humana é Posta à Serviço de Deus

  • 28 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura
Santo Agostinho
Agostinho de Hipona: homem transformado pela graça de Deus, intelectual e, acima de tudo, Bispo apaixonado pelo Coração de Cristo.
Santo Agostinho, após viver uma vida desregrada e distante de Deus, se encontrou com a verdadeira Vida que é Jesus. A mente e o corpo que antes eram servas do pecado e instrumento de injustiça, tornaram-se instrumento da graça e justiça divinas. Aconteceu com ele o que São Paulo nos diz em Rm 6, 22: "Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a vida eterna". O próprio Agostinho, com as lágrimas do Filho Pródigo diz nas suas Confissões:

“Pequena é minha alma, alargue-a e nela faça morada. Está em ruínas; repara-a. Ali encontrarás o que possa ofender aos Teus olhos; confesso e o sei. Mas quem poderá limpá-la? Ou, a quem devo chorar senão a Ti? Senhor, limpa-me das minhas falhas ocultas e livra Teu servo do poder do inimigo. Creio, por isso digo. Senhor, Tu o sabes. Não confessei eu contra mim mesmo as minhas transgressões a Ti, e Tu, meu Deus, perdoou-me da iniquidade do meu coração?” (Confissões, Livro I, cap 5)

Hoje, dia que a Igreja reservou para honrá-lo, vamos conhecer um pouco de sua biografia com dados retirados da obra Vita Sancti Augustini, de Possídio de Calama.
Santo Agostinho nasceu em Tagaste, na África romana, em 13 de novembro de 354. Filho de Patrício, um pagão que se converteu no fim da vida, e Mônica, uma cristã fervorosa, Agostinho cresceu entre duas visões de mundo. Desde cedo, demonstrou inteligência incomum e foi enviado para estudar retórica em Cartago, onde mergulhou em uma vida de prazeres e inquietações filosóficas. Sua busca pela verdade o levou ao maniqueísmo, ao ceticismo acadêmico e, finalmente, ao neoplatonismo.
A conversão de Agostinho foi um processo gradual, marcado por crises interiores e pela influência de Santo Ambrósio, bispo de Milão. Em 387, após intensa reflexão e leitura das Escrituras, foi batizado por Ambrósio, junto com seu filho Adeodato. Essa experiência transformadora o levou a abandonar a carreira de professor e retornar à África, onde fundou uma comunidade monástica em sua casa.
Em Hipona, foi surpreendido pela aclamação popular para o sacerdócio. Embora relutante, aceitou a ordenação como presbítero e, posteriormente, como bispo coadjutor de Valério. Possídio (que escreveu sobre a vida do santo dois anos após sua morte) relata que Agostinho chorou ao ser ordenado, não por vaidade, mas por temor diante da responsabilidade pastoral. Como bispo, fundou um mosteiro dentro da igreja e viveu segundo a regra apostólica: tudo em comum, nada de propriedade privada.

Bispo de Hipona Agostinho
O Santo Bispo de Hipona
Agostinho enfrentou diversos desafios doutrinários. Combateu os maniqueístas, que negavam a bondade da criação; os donatistas, que dividiam a Igreja com base na pureza dos ministros; e os pelagianos, que negavam a necessidade da graça divina para a salvação. Possídio destaca debates públicos memoráveis, como os realizados com Fortunato (maniqueísta), Pascênio (ariano) e Emérito (donatista), nos quais Agostinho demonstrou erudição, humildade e firmeza doutrinária.
Sua produção literária foi vasta e influente. Escreveu tratados teológicos, cartas pastorais, sermões e obras filosóficas. Confissões, sua autobiografia espiritual, revela sua jornada interior e sua relação íntima com Deus. A Cidade de Deus, escrita após o saque de Roma, contrapõe a cidade terrena à cidade celestial, oferecendo uma visão teológica da história. Para nós, catequistas, recomendo fortemente a leitura de De Catechizandis Rudibus (Primeira Catequese aos Não Cristãos ou A instrução dos Catecúmenos) e De Fide et Symbolo (A Fé e o Símbolo), uma explicação do Credo aos catecúmenos.
Eu particularmente comecei com as Confissões e é apaixonante. Foi impossível não me reconhecer pecador ao caminhar junto com ele em sua trajetória de arrependimento, confissão e conversão. Vejamos abaixo um trecho do livro X que sintetiza o que estou falando, que inclusive os jesuítas Oliveira Santos e Ambrósio de Pina afirmam ter convertido uma senhora francesa após ouvi-lo do Beato Claúdio La Colombière:

Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o, suspirando por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da vossa paz. (idem, Livro X, cap. 27)
Agostinho também atuou como juiz em disputas civis, sempre buscando justiça e instruindo as partes na fé. Intercedia por prisioneiros e necessitados, mas com prudência, evitando comprometer sua autoridade espiritual. Ele recusava presentes suspeitos e administrava os bens da Igreja com transparência. Quando necessário, mandava fundir vasos sagrados para ajudar os pobres, demonstrando desapego e caridade.
Sua vida pessoal era marcada por simplicidade e disciplina (depois da conversão, claro!). Vestia-se com modéstia, comia moderadamente e mantinha uma rígida ordem doméstica. À mesa, preferia leitura e discussão à comida, e proibia maledicência com uma inscrição que advertia os convidados: “Guardai vossas línguas contra a maledicência.” Nunca permitiu que mulheres vivessem em sua casa, nem mesmo sua irmã ou sobrinhas, por zelo pastoral e para evitar escândalos.
Agostinho formou diversos bispos e clérigos em seu mosteiro, enviando-os para outras dioceses. Sua influência ultrapassou fronteiras, chegando às igrejas do Oriente. Participou de concílios e sínodos, zelando pela ortodoxia e pela disciplina eclesiástica. Era consultado por bispos, monges e até autoridades civis, que reconheciam sua sabedoria e integridade.
Durante o cerco de Hipona pelos vândalos, Agostinho sofreu profundamente. Viu igrejas destruídas, fiéis dispersos, sacerdotes mortos ou exilados. Em meio à devastação, orava por libertação ou coragem para suportar a vontade divina. Pediu a Deus que o levasse, e foi atendido: morreu em 28 de agosto de 430, aos 76 anos, após quase 40 dedicados ao ministério.
Nos últimos dias, leu os Salmos penitenciais pendurados na parede e chorava constantemente. Pediu isolamento para dedicar-se à oração. Morreu com lucidez, sem fazer testamento, pois nada possuía. Deixou à Igreja uma biblioteca, um corpo de clérigos e comunidades monásticas. Possídio, que conviveu com ele por quase 40 anos, encerra a biografia com louvor à sua santidade e um pedido de oração para que possa imitá-lo e encontrá-lo na vida eterna.
A obra de Possídio é mais que uma biografia: é um testemunho de amizade, admiração e fé. Ele não apenas narra os feitos de Agostinho, mas revela sua alma, seu zelo pastoral, sua humildade e sua paixão pela verdade. Ao longo de seu livreto, vemos um homem que, tendo conhecido o mundo, escolheu Deus e, ao fazê-lo, transformou a história da Igreja.
Por fim, deixo a oração a Santo Agostinho

Ó excelso doutor da graça, Santo Agostinho.
Tu que contaste as maravilhas do amor misericordioso operado em tua alma,
ajuda-nos a confiar sempre e unicamente na ajuda divina.
Ajuda-nos, ó grande Santo Agostinho, a encontrar a Deus “eterna verdade.
Verdadeira caridade, desejada eternidade”. Ensina-nos a crer e viver na graça, superando nossos erros e angústias. Acompanha-nos à vida eterna, para amar e louvar incessantemente ao Senhor. Amém.
Santo Agostinho, rogai por nós!


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SOBRE MIM

Pai, esposo, devoto de São José e catequista que, entre idas e vindas, fui mais uma vez resgatado pelo amor do Pai e desejo compartilhar experiências, dúvidas e conhecimentos sobre catequese e tudo que a ela se relaciona.

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